Pessoas na praia com o laptop no colo: o clichê mais perigoso do empreendedorismo

Mais um dia comum fazendo minhas planilhas no excel

Faça o que ama e não terá que trabalhar um dia sequer na vida. Encontre seu propósito. Fature alto na internet trabalhando de qualquer lugar. Tenha lucros reais trabalhando online.

Mãe, já acabei foi convidada a ter o seu artigo na publicação da ContaAzul da por trazer um ponto de vista interessante sobre empreendedorismo. Exceto por essa nota, o texto foi publicado na íntegra.

Pode ver, quando alguma coisa desse tipo pipoca na sua timeline, o texto sempre vem acompanhado de uma foto que inclui: uma pessoa feliz na praia, com o laptop no colo. A proposta é fazer você se sentir tão inútil na sua vida-de-escritório-oito-horas-por-dia-com- queda-de-cabelo-por-estresse a ponto de pensar que aquele cara ali da foto é um modelo a ser seguido. Um guru meio humano meio .jpg que tem o segredo da felicidade.

Como eu trabalho basicamente pela internet há bastante tempo, me acostumei a ver esse tipo de link-isca nas minhas redes sociais. Essas ~propagandas~ vendem um empreendedorismo digital quase irreal, aplicável a pouquíssimos casos, numa tentativa de criar um modelo de satisfação profissional intangível para a grande maioria das pessoas. Isso soa familiar pra você depois de tantos anos de revistas femininas estampando mulheres minuciosamente trabalhadas para parecerem perfeitas? Qualquer modelo tem como objetivo servir de molde, de meta de vida.

Opa, tudo bem? Queria saber quando cai o pagamento daquele freela que entreguei em março de 2011

O problema é que muita gente insatisfeita vai olhar pro cara na praia com o laptop no colo e dizer pra si mesmo: “Isso é que é certo. Também quero largar tudo e viajar o mundo para poder ir à praia e trabalhar ao mesmo tempo”.

Pera. Olha a merda. A gente se deslumbra com a possibilidade de estar na praia AND trabalhar com um computador no colo. De não estar nem em um lugar, nem em outro, de fato. Estar nos dois ao mesmo tempo sem conseguir se concentrar em nenhum deles. De estar na praia e ficar com os olhos grudados numa tela de computador fazendo planilhas em vez de admirar o mar.

Gente que nunca teve como prioridade viajar (nem que seja ali do lado) agora sente uma compulsão estranha por largar tudo e sair pelo mundo.

Claro que o “trabalhar na praia com o computador no colo” é só uma alegoria que existe de maneira literal, mas que também pode ser substituída por outras configurações de trabalho consideradas “livres”.

Ter liberdade pra trabalhar é maravilhoso e não por acaso essa foi a vida que escolhi pra mim há mais de 5 anos. Também posso pegar meu laptop e trabalhar na praia. Já peguei meu computador e trabalhei num xalé em cima de uma montanha nevada com coelhos selvagens no quintal e durante uma roadtrip em lugares impensáveis da Nova Zelândia. E sabe o que? Nunca achei que isso fosse modelo de satisfação pra ninguém. Era apenas uma oportunidade que eu tive e que também veio com cobranças, prazos, depressão por causa da solidão, compulsão alimentar, falta de grana e a ideia latejante de desejar um emprego fixo pra ter a certeza de um salário no fim do mês.

Foi ótimo? Foi. Mas não ter uma rotina se torna a própria rotina em si e pode cansar da mesma maneira. A insatisfação uma hora ou outra bate na porta, seja lá qual for a sua situação. Porque somos incompletos por natureza.

Meu caso foi só um caso. Também não quer dizer que não seja possível trabalhar remotamente de forma segura.

Caramba 18h já, tá vencendo o aluguel do buggy e nem saí do lugar ainda. Tava vendo os relatórios do facebook do cliente

Mas não caiam na lenga-lenga de que a felicidade está somente reservada a esse ou aquele modelo de trabalho. Saiba primeiro o que seu trabalho significa antes de tentar encontrar um modelo pra ele. Isso tem feito com que muita gente se sinta triste e uma culpa inexplicável por manter um trabalho normativo e sem grandes emoções que valem um post no Facebook.

Esquecemos que essas grandes emoções podem ser sentidas fora do âmbito trabalhista. Com seus filhos, em uma viagem bem aproveitada (onde você não vai precisar trabalhar), com seus colegas malucos no happy hour, com uma pessoa querida num almoço que se estende pela tarde inteira.

A cada dia, vejo mais e mais pessoas atribuindo ao trabalho sua única fonte de satisfação. E, apesar da luta diária para entender mais o porquê de tudo isso e a reverter esse quadro, me incluo nesse caldo. É lá onde passa a morar a felicidade e isso justifica bastante a enxurrada de posts sobre nômades digitais e seu maior clichê: pessoas na praia com o laptop no colo.

Ter objetivo de mudança, desejar sair da inércia que a vida muitas vezes nos coloca é importantíssimo e fundamental para o nosso crescimento. Mas ter um modelo de felicidade como se fosse o próximo ponto de ônibus onde deveremos saltar é uma armadilha que só piora nossa angústia e ansiedade. E essas sensações crescem cada vez que tentamos copiar sem sucesso as experiências que cabem particularmente ao outro.

Trabalhar na praia, no campo, na estrada, na aldeia indígena, em frente ao pôr-do-sol pode ser ótimo sim. Mas você não se sentiria mais completo estando por inteiro em um lugar bonito em vez de se apressar para entregar os relatórios/posts/planilhas do dia?